domingo, 2 de dezembro de 2007

Conflito geracional?

O nosso concelho tem cerca de 1300 alunos, distribuídos pelo pré-escolar ao 11º ano. Por aquilo que me é dado saber, as angústias deste professor cuja carta aberta transcrevo, relativamente aos CEF não se aplicam ao agrupamento, já que, regra geral, são cursos que funcionam bem, no entanto, no geral, o nosso concelho padece dos problemas aqui apresentados. Em conversa com alguns pais e professores, tomei conhecimento que um dos problemas que começa a afligir os que têm responsabilidade na educação deste concelho é a INDISCIPLINA.
O blog Democracia em Portugal veio dar voz a uma carta aberta de um professor, que dá conta da realidade das salas de aulas em Portugal.
Apenas farei referência a alguns pontos, estando o resto disponível para ler aqui.
"Senhor Presidente da República Portuguesa Excelência:
Disse V. Excia, no discurso do passado dia 5 de Outubro, que os professores precisavam de ser dignificados e eu ouso acrescentar: "Talvez V. Excia não saiba bem quanto!"
1. Sou professor há mais de trinta e seis anos e no ano passado tive o primeiro contacto com a maior mentira e o maior engano (não lhe chamo fraude porque talvez lhe falte a "má-fé") do ensino em Portugal que dá pelo nome de Cursos de Educação e Formação (CEF).A mentira começa logo no facto de dois anos nestes cursos darem equivalência ao 9º ano, isto é, aldrabando a Matemática, dois é igual a três!Um aluno pode faltar dez, vinte, trinta vezes a uma ou a várias disciplinas (mesmo estando na escola) mas, com aulas de remediação, de recuperação ou de compensação (chamem-lhe o que quiserem mas serão sempre sucedâneos de aulas e nunca aulas verdadeiras como as outras) fica sem faltas. Pode ter cinco, dez ou quinze faltas disciplinares, pode inclusive ter sido suspenso que no fim do ano fica sem faltas, fica puro e imaculado como se nascesse nesse momento.Qual é a mensagem que o aluno retira deste procedimento? Que pode fazer tudo o que lhe apetecer que no final da ano desce sobre ele uma luz divina que o purifica ao contrário do que na vida acontece. Como se vê claramente não pode haver melhor incentivo à irresponsabilidade do que este.
2. Actualmente sinto vergonha de ser professor porque muitos alunos podem este ano encontrar-me na rua e dizerem: "Lá vai o palerma que se fartou de me dizer para me portar bem, que me dizia que podia reprovar por faltas e, afinal, não me aconteceu nada disso. Grande estúpido!""
(...) Os nossos alunos estão em estado bruto, estão tal e qual a Natureza os fez, cresceram como silvas que nunca viram uma tesoura de poda. Apesar de terem 15/16 anos parece que nunca conviveram com gente civilizada.Não fazem distinção entre o recreio e o interior da sala de aula onde entram de boné na cabeça, headphones nos ouvidos continuando as conversas que traziam do recreio.Os nossos alunos entram na sala, sentam-se na cadeira, abrem as pernas, deixam-se escorregar pela cadeira abaixo e não trazem nem esferográfica nem uma folha de papel onde possam escrever seja o que for.Quando lhes digo para se sentarem direitos, para se desencostarem da parede, para não se virarem para trás olham-me de soslaio como que a dizer Olha-me este!" e passados alguns segundos estão com as mesmas atitudes.
4. Eu não quero alunos perfeitos. Eu quero apenas alunos normais!!! Alunos que ao serem repreendidos não contradigam o que eu disse e que ao serem novamente chamados à razão não voltem a responder querendo ter a última palavra desafiando a minha autoridade, não me respeitando nem como pessoa mais velha nem como professor. Se nunca tive de aturar faltas de educação aos meus filhos por que é que hei-de aturar faltas de educação aos filhos dos outros?
(...) Nos últimos cinco minutos de uma aula disse aos alunos que se aproximassem da secretária pois iria fazer uma experiência ilustrando o que tinha sido explicado e eles puseram os bonés na cabeça, as mochilas às costas e encaminharam-se todos em grande conversa para a porta da sala à espera que tocasse. Disse-lhes: "Meus meninos, a aula ainda não acabou! Cheguem-se aqui para verem a experiência!" mas nenhum deles se moveu um milímetro!!!Como é possível, com alunos destes, criar a empatia necessária para uma aula bem sucedida?É por estas e por outras que eu NÃO ADMITO A NINGUÉM, RIGOROSAMENTE A NINGUÉM, que ouse pensar, insinuar ou dizer que se os meus alunos não aprendem a culpa é minha!!!
O que este professor descreve na carta, em tom de desabafo, em primeiro lugar, e mais importante que tudo, é que grande parte dos alunos que hoje frequentam as salas de aula são desprovidos do mínimo sentido de responsabilidade, de civismo e de respeito.
Por incrível que pareça, estas atitudes são mais notórias em crianças de 10 a 13 anos, alastrando a indisciplina a outros grupos que, isoladamente, têm comportamentos adequados. São o resultado de uma sociedade que, começando nos pais, "aprenderam" que tudo se consegue com pouco esforço e sem que a culpa do seu insucesso (dos alunos) lhes seja imputada.
Nesta minha pesquisa, passei pelo web site do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos e pelo blog da biblioteca. Para meu espanto, a coordenadora da BE publicou uma carta aberta, dirigida aos alunos do agrupamento, apelando ao respeito e ao civismo – no fundo aos valores básicos da vida em sociedade.
As angústias do professor desta carta aberta parecem ser as mesmas dos nossos docentes.
Na verdade, se todas as vontades destes jovens lhes são feitas em casa, por que razão pensariam eles que havia de ser diferente na escola?
Com efeito, parece não haver diferença nenhuma: os alunos querem passar de qualquer maneira, e o sistema de ensino está feito para permitir a passagem de ano com a maior das facilidades até ao 12º ano – basta lermos o novo estatuto do aluno.
Mas pergunto:
Quantos dos que aqui estão a ler este post e têm filhos em idade escolar podem dizer com certeza que estes não têm precisamente as mesmas atitudes que as descritas na carta acima transcrita e na carta da biblioteca do nosso agrupamento de escolas? Não são iguais a tantos outros? Não têm os mesmos objectivos e não se dão com os outros? Até que ponto os pais se encontram presentes e lhes transmitem os valores de responsabilidade, respeito, educação e trabalho?
Esta forma de educar (que perpassa a mensagem de que "tudo é fácil", porque satisfaz todos os caprichos) apenas adia o confronto dos jovens com as dificuldades da vida - para as quais não estão preparados - e cria adultos tristes e frustrados com a vida que não souberam construir por não lhes terem sido dadas bases para lidar com as adversidades.
Voltando às palavras iniciais deste professor, os professores precisam de ser dignificados. Se em casa não há uma mensagem de valorização da escola e se os professores são constantemente postos em causa, como podem os jovens respeitar a instituição e aqueles que lhe dão rosto?

3 comentários:

Anónimo disse...

Quando os pais vão à escola tirar satisfações e ameaçar o professor porque este repreendeu o seu filho, o que é que podemos esperar?
A escola é cada vez mais um local onde se deixam os filhos. à escola exige-se tudo: eduque, ensine, proteja; alimente; guarde; vigie... E os pais?

Tiago Carneiro disse...

Obrigado por ajudarem nesta luta.
Luta esta que devia ser do país.

Abraço
Tiago

P.S. - Bom Ano

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado